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Mafalda Moita

Nasci em Coimbra, a 20 de abril de 2004. Estudei na Escola Básica e Secundária Quinta das Flores. Atualmente estou no segundo ano da licenciatura de Jornalismo e Comunicação na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Durante este período, colaborei no _Jornal Hermes_, da Faculdade de Letras e, também, no _Jurista_, jornal da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Atualmente estou num processo de edição de um livro com a Editora Oficina da Escrita. Escrever sempre fez parte de mim e tenho, como futura jornalista, o desejo de cumprir com rigor e paixão tudo a que me proponho.

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Tema: LivreData de Publicação: 19/08/2025, 16h31
“É só isso / Não tem mais jeito / Acabou / Boa sorte.”

Não me lembro de quantos anos tinha. Não devia ser mais de uma década de vida. Mas recordo-me do carro, uma carrinha Mazda, cinzenta escura, com bancos de pele e tanto espaço na mala que nunca houve dificuldades para encaixar a bagagem. Era sempre o meu pai que conduzia. A minha mãe estava à frente, com ele. E eu e o meu irmão mais velhos entretínhamo-nos nos bancos de trás, imaginando aventuras com os nossos bonecos do Winnie The Pooh, alheados do mundo lá fora.

Tínhamos o hábito de ouvir a rádio, não muito alto, mas de maneira que as melodias e as mudanças de timbres fossem reconhecidas.

A minha mãe era uma apaixonada pela música. Uma paixão que nunca a fez cantar ou tocar um instrumento, mas fazia-a escutar. Até hoje, não conheci ninguém com uma cultura musical como a sua, que me soube explicar como o Michael Jackson se juntou ao Lionel Richie e escreveram “We Are The World” ou o porquê da Ella Fitzgerald ter ficado conhecida como “The first Lady of Song”.

Naquela viagem ouvi pela primeira vez a voz da Vanessa da Mata. Começou a tocar o “Boa sorte” e o meu pai, quase instantaneamente, aumentou o volume. Olhei para eles os dois e ouvi-os. Às vezes, a tentar imitar o sotaque com mel, outras vezes só a deixarem-se ir na melodia. Foi como se aquele dueto com o Ben Harper e a cantora brasileira, tivesse sido feito para aquele instante. Não percebia a letra, concentrava-me no ritmo e na melodia, mas devia ser apaixonante, já que os meus pais se entregavam ao refrão com tanto amor.

Quando ouço essa música, parece que estou ali outra vez. Talvez seja uma escolha estranha, mas diria que esses versos acompanharam o meu crescimento. E sei-lo bem hoje, porque finalmente a escutei e a entendi.

A música falava de ti. Que me conheceste, devagarinho. Que esperaste por mim sem pressa, como se também estivesse à tua espera. Mas não estava. Não estou. E “tudo o que quer(es) me dar / É demais.” E eu, que me digo ultrassensível, afinal não senti nada. Tu sentias pelos dois. Sentes, ainda.

E o amor não se força. Não seria amor se assim fosse. E saber que o amava como se fosse meu irmão de sangue, lhe partiu o coração, também partiu o meu. E desapegámo-nos.

Não o amei nunca dessa forma. “E o que eu sinto / Não mudará”. Conheço-me bem para afirmá-lo.

No entanto, sei que não precisas de sorte. Encontrarás alguém que te ame da forma que eu não amei. E quando isso acontecer, vou sorrir-te.

A música não parecia tão cruel, quando os meus pais a cantavam. Parecem versos doces que escondem feridas abertas. Se calhar, ele está a desejar-me “boa sorte”, porque o magoei e ele não se quer magoar mais.

Nem eu quero.

Daqui a uns anos vou ouvir estes versos e vou continuar a lembrar-me dos meus pais. Porque eles foram capazes de amar sem limites.

O melhor de tudo, foram capazes de cantar a canção brasileira como se fosse a canção de amor mais bonita do mundo.

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