Vivi no tempo do fascismo, acompanhei as cheias de 1967 na região de Lisboa, com reflexos no Ribatejo, senti o terramoto de 1969, vivi mesmo múltiplas cheias no Ribatejo (onde tinha nascido e morava).
De 25 para 26 de Novembro de 1967, as cheias na região de Lisboa causaram cerca de 700 mortes (só em Vila Franca de Xira houve 204 mortos), a destruição de 20.000 casas (originando milhares de pessoas sem abrigo), e a aniquilação de estradas e pontes, constituindo a pior catástrofe na região desde o terramoto de 1755.
As informações chegavam-nos escassas, apesar da gravidade da tragédia, e censura do Estado Novo restringia as notícias desenvolvidas sobre as cheias e as suas consequências, proibindo até a divulgação da contabilização completa das mortes e da devastação. Li o jornal “O Século”, que arriscava noticiar a calamidade...
Havia frágil assistência, mais a cargo da sociedade civil, com a participação dos estudantes de Lisboa no apoio às populações, através das Associações de Estudantes e da Juventude Universitária Católica, com raros corpos de bombeiros e militares (a guerra colonial estava em curso).
A gravidade das cheias e suas consequências deveram-se às bacias hidrográficas da região lisboeta terem áreas reduzidas e tempos de resposta curtos (2 horas), a drenagem ter sido dificultada pela construção ao longo dos cursos de água, pela falta de limpeza dos rios e ribeiras, e pela canalização subterrânea com dimensão insuficiente.
Senti o terramoto de 28 de fevereiro de 1969, com magnitude entre 7,3 e 7,9 na escala de Richter (o mais forte a atingir Portugal continental no século XX), que gerou um pequeno tsunami, ocorrido pelas 03h 41m, e tendo causado 13 mortos, danos no Algarve, Ribatejo e região de Lisboa.
O meu pai levou-me ao colo (tinha 13 anos) do quarto para a porta de entrada da casa, onde vi o nosso alpendre em frente, com as telhas a saltarem em catadupa, e um ruído ensurdecedor indescritível, cortes na energia e nas incipientes comunicações da época, pânico na população a sair para as ruas na madrugada (houve 47 réplicas, uma das quais violenta, nessa noite), sem haver normas de construção antissísmica.
As cheias no Ribatejo, desde 1945 foram uma constante anual (nos períodos de Janeiro e Abril, tendo muitas cerca de um mês de duração), que senti em Almeirim e Benavente, violentas na perda de vidas, animais e bens, nas estradas cortadas, na destruição dos campos agrícolas, nas inundações de muitas povoações (hoje cidades e vilas), onde se circulava de barco (com escolas sem professores que tinham medo de vir no barco), o comércio semi-paralisado sem clientes, os recursos materiais das pessoas reduzidos por ausência de produção agrícola, originado dificuldades económicas (não havia nenhuns apoios à agricultura no tempo da ditadura).
As maiores cheias do século XX, em volume de água (mesmo após a construção da barragem do Fratel em 1973), ocorreram em 1979, já em democracia, com inundações de extensas áreas agrícolas e isolamento de populações, embora com menos vítimas mortais do que em 1967 (2.000 pessoas forma evacuadas, houve 2 mortos e 115 feridos no vale do Tejo e Santarém, e 30 mortos e mais de 900 desalojados na região de Lisboa).
Estamos em democracia há 51 anos, o que faz o Governo PSD / CDS atual? Não pode esconder a circulação da informação como no tempo da ditadura, face à conquista da liberdade de expressão, mas que medidas toma perante a catástrofe anunciada?
A tecnologia melhorou, mas a comunicação apesar da digitalização parece não ter melhorado, tendo mesmo falhado de novo após o mau exemplo dos incêndios – SIRESP, vêm aí os populismos de novo Salazar que quer 3 Salazares, qual salvador de Deus, Pátria e Autoridade, o presidente da República quer uma comissão...
Segundo o jornal “Público”, a Protecção Civil só pediu ao Exército 4 militares e 3 viaturas no dia após a tempestade (seria ridículo se não fosse dramático), com a missão de limpeza de itinerários e estradas, depois aumentaram as equipas, ainda assim uma reduzida parte do que as Forças Armadas têm disponível e em estado de prontidão, mas sem atuar, ficando a solidariedade vã.
Há 9 mortos (à data), os presidentes de Câmara estão desesperados sem apoio do Governo central, a incompetência ministerial desaparecida sem combate parece uma zombie bem penteada, vem aí nova tempestade e mais consequências decerto em inundações (onde estão as barreiras de contenção de água?), em vidas e perda de bens, as infraestruturas elétricas são primárias (em Macau assisti a tufões grau 8 em 10 e nenhum poste foi destruído), a destruição do interior agrava o contínuo despovoamento, o Governo não assume o pedido de adiamento à UE dos prazos do PRR, e por aí fora.
O Conselho de Ministros extraordinário decreta o estado de calamidade prolongado, pede o respeito pelas indicações da proteção civil, anuncia apoios de 10.000 euros (!?) por habitação atingida, cria uma estrutura de missão (com que poder?), dispensa apoios de 537 euros (individual) ou 1065 euros (por família carenciada), totalizando 2.500 milhões, concede isenção de contribuições durante 6 meses. Mas é pouco. Casa roubada, trancas na porta, é o lema. E medidas para futuros eventos que aí vêm?
São factos e análises. Há requisição civil para profissionais de saúde e outros funcionários públicos, camionistas e professores quando aos governos aprouver.
Mas não há requisição de empresas da construção civil para calamidades, quando não estão a operar. Há dispensa de voluntários para serem voluntários? Autarcas sentem-se abandonados, e não são Calimeros. Não foi anunciado a ativação do mecanismo europeu de proteção civil (até com geradores).
Enfim, catástrofes continuarão a existir, mas a sua minimização depende de Governos competentes, de estruturas fiáveis e fidedignas, de meios de suporte, contenção e ação, de titulares que não sejam apenas figuras de proa emproadas, e que apoiem quem está no terreno, organizando, ajudando, sofrendo.


