Desde muito cedo ensinamos às nossas crianças a importância de uma alimentação saudável. Começamos no pré-escolar, continuamos no ensino básico e voltamos ao tema ao longo do percurso escolar. Falamos da roda dos alimentos, da importância dos legumes e da fruta, do consumo de água, dos perigos do excesso de açúcar e de sal. Ensinamos que aquilo que comemos influencia a nossa saúde, o nosso desenvolvimento e até a nossa capacidade de aprender. E é fundamental que assim seja.
Mas há uma pergunta muito simples que deveríamos fazer: aquilo que ensinamos na sala de aula é aquilo que colocamos no prato das nossas crianças?
É aqui que começa uma contradição difícil de explicar. Em Coimbra, as refeições escolares são gratuitas para as famílias. É uma medida importante, porque garante que o acesso a uma refeição na escola não depende da capacidade económica de cada agregado familiar.
Mas gratuito para as famílias não significa que a refeição não tenha um custo. Alguém a paga. E somos todos nós, através do orçamento municipal. Por isso, a discussão que devemos ter não é sobre quanto devem pagar os pais. É sobre quanto estamos, enquanto comunidade, dispostos a investir na refeição de uma criança.
Quando o valor orçamentado pelo Município por refeição fica abaixo dos dois euros, há uma pergunta que considero inevitável: é possível, por menos de dois euros, colocar diariamente no prato de uma criança uma refeição saudável, variada, bem confecionada e suficientemente apelativa para que ela efetivamente a coma? E não falamos apenas dos alimentos.
Nesse valor têm de caber matérias-primas, preparação, recursos humanos, logística, transporte, conservação e todas as restantes exigências inerentes à prestação do serviço. Podemos definir ementas nutricionalmente irrepreensíveis no papel. Podemos estabelecer quantidades, calorias e proporções adequadas. Mas há uma realidade muito simples que nenhuma folha de Excel consegue ultrapassar: se a comida fica no prato, a refeição falhou. E é precisamente aqui que os relatos de crianças e famílias devem ser ouvidos.
Fala-se de refeições pouco apelativas, alimentos mal confecionados e, por vezes, situações em que a comida chega insuficientemente cozinhada. Não seria rigoroso concluir, a partir destes relatos, que todas as refeições ou todas as escolas apresentam os mesmos problemas. Mas seria igualmente errado não querer saber.
A qualidade da alimentação escolar não pode ser avaliada apenas pelo cumprimento formal de um caderno de encargos. É preciso perceber o que acontece no refeitório. Quanto comem efetivamente as crianças? Quanto fica nos pratos? Que alimentos são sistematicamente rejeitados? Existem diferenças entre escolas?
O desperdício alimentar pode, aliás, ser um excelente indicador. Se todos os dias uma quantidade significativa da comida servida regressa nos pratos, alguma coisa merece ser analisada. Não necessariamente porque a refeição seja nutricionalmente inadequada, mas porque uma refeição escolar só cumpre a sua função se chegar ao estômago da criança.
Há depois uma segunda questão, mais difícil: as prioridades.
Os recursos públicos não são ilimitados. Se considerarmos que menos de dois euros não permitem assegurar consistentemente a qualidade que queremos, então aumentar o investimento na alimentação escolar implicará encontrar recursos. E talvez seja saudável discutirmos onde queremos colocá-los.
Dou um exemplo - o Município disponibiliza cadernos de atividades aos alunos. É um apoio às famílias e tem certamente utilidade. Mas os cadernos de atividades são um complemento, a alimentação é uma necessidade básica. Se os recursos forem limitados e tivermos de optar entre manter determinados apoios complementares ou acrescentar algumas dezenas de cêntimos à refeição que uma criança recebe todos os dias, considero legítimo colocar a pergunta: onde produzimos maior impacto na vida daquela criança? Não defendo que se retire simplesmente um apoio para financiar outro. Defendo que devemos ter esta discussão e estabelecer prioridades com transparência.
Mas existe outra forma de fiscalizar a qualidade que custa muito pouco: ouvir. E podemos começar em casa. Quantos pais, quando os filhos chegam da escola, perguntam:
“Então, correu bem o dia?”
“Sim.”
E ficamos satisfeitos. O problema não está na resposta. Está, muitas vezes, na pergunta. Experimentemos perguntar: “O que aconteceu hoje que te deixou contente?”, “E o que correu menos bem?”, “O que almoçaste?”…
As perguntas abertas deixam as crianças falar. E quando as deixamos falar, descobrimos frequentemente uma escola diferente daquela que conhecemos através dos adultos.
Talvez devêssemos aplicar o mesmo princípio institucionalmente.
Porque não perguntar regularmente às crianças o que pensam das refeições? Porque não envolver alunos, pais, professores e profissionais de nutrição numa avaliação periódica?
Porque não medir o desperdício por escola? E porque não divulgar os resultados?
Há algo profundamente contraditório em ensinar alimentação saudável durante anos e depois não atribuir à refeição escolar a importância correspondente.
Uma criança aprende com aquilo que lhe ensinamos. Mas aprende ainda mais com aquilo que fazemos.
Se lhe explicamos na sala de aula que uma boa alimentação é fundamental para crescer com saúde, então aquilo que colocamos no seu prato, algumas horas depois, tem de ser coerente com essa mensagem.
Coimbra tem Universidade, escolas, profissionais de saúde, nutricionistas, investigadores e conhecimento científico suficientes para ambicionar mais. A alimentação escolar não deve ser vista apenas como um serviço que é preciso contratar pelo menor preço possível.
Porque investir na alimentação das nossas crianças é investir, ao mesmo tempo, na sua saúde, na sua educação e no seu futuro!



