A forte precipitação registada e prevista para as próximas horas levou as autoridades a decretar evacuações preventivas em zonas ribeirinhas dos concelhos de Coimbra, Soure e Montemor-o-Velho, face ao risco de colapso de diques no vale do Mondego. O alerta foi deixado esta terça-feira, 10 de fevereiro, numa conferência de imprensa realizada nas instalações da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), em Coimbra, onde foi feito um ponto de situação atualizado.
O presidente da APA, José Pimenta Machado, explicou que a reunião teve carácter de emergência, sublinhando que, em apenas dois dias, “choveu o equivalente a 20% de um ano inteiro”. De acordo com os dados do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), os valores de precipitação previstos para quarta-feira serão semelhantes aos registados hoje, com agravamento a partir das 7h00. “Há um risco claro de os diques poderem colapsar”, afirmou, acrescentando que, por precaução, será feita a retirada de pessoas das áreas de risco e uma monitorização contínua durante toda a noite.
José Pimenta Machado garantiu um acompanhamento “minuto a minuto” da situação, com o objetivo de evitar que o caudal do Mondego ultrapasse os 2.000 metros cúbicos por segundo na Ponte Açude, depois de hoje ter atingido os 1.700 m³/s. Referiu ainda que a Barragem da Aguieira dispõe, neste momento, de capacidade de encaixe para cerca de 90 hectómetros cúbicos.
Perante este cenário, o comandante do Comando Sub-regional de Emergência e Proteção Civil da Região de Coimbra, Carlos Luís Tavares, afirmou que, com base na informação da APA, “resta-nos atuar” segundo o princípio da precaução, com o objetivo de proteger pessoas e bens. Confirmou que os municípios de Coimbra, Soure e Montemor-o-Velho irão avançar com evacuações, ativando as zonas de acolhimento previamente definidas.
Em Coimbra, a presidente da Câmara Municipal, Ana Abrunhosa, anunciou a evacuação da zona da Conraria e Cabouco (ZCAP 4), com encaminhamento das populações para a Casa do Povo de Ceira, e da zona de São Martinho do Bispo (ZCAP 6), onde o acolhimento será feito na Escola Básica 2,3 Inês de Castro. Nas zonas ribeirinhas de Ribeira de Frades, Taveiro, Ameal e Arzila, as pessoas deverão dirigir-se para a Escola Básica 2,3 de Taveiro.
A autarca assegurou que as zonas de acolhimento estão preparadas com todas as condições necessárias e indicou que algumas pessoas já começaram a deslocar-se para esses espaços. No total, estima-se que entre 2.800 e 3.000 residentes vivam nas áreas identificadas, embora apenas cerca de 25% devam recorrer às zonas de acolhimento, uma vez que muitos optaram por ficar em casas de familiares. As escolas das freguesias de Santa Clara e Castelo Viegas, São Martinho do Bispo, Ribeira de Frades, Taveiro, Ameal e Arzila estarão encerradas na quarta-feira. A GNR e a PSP irão percorrer as zonas afetadas para informar a população e solicitar a evacuação de forma ordeira. Três lares já foram evacuados, incluindo o Lar de São João, em São Martinho do Bispo, tendo os idosos sido transferidos para o Pavilhão Mário Mexia.
No concelho de Soure, o presidente da Câmara, Rui Fernandes, afirmou que “não há risco zero” e que o município ajustou os meios ao nível de risco existente. Após reuniões com os presidentes das juntas das freguesias mais afetadas, Figueiró do Campo, Granja do Almeiro, Alfarelos, Vinha da Rainha e Samuel, foi decidido encerrar todas as escolas. O autarca alertou ainda para outras ocorrências registadas, como quedas de taludes, muros e derrocadas em habitações, garantindo trabalho contínuo durante a noite e “atenção máxima” no dia seguinte.
Em Montemor-o-Velho, o presidente da Câmara, José Veríssimo, apelou à serenidade das populações e à confiança nas informações oficiais. A monitorização está a ser feita de hora a hora, mantendo-se a localidade de Ereira isolada na margem direita do Mondego. O autarca indicou que Casal Novo do Rio poderá vir a ser afetada, mas que a principal preocupação recai sobre a margem esquerda, nomeadamente Pereira, Santo Varão, Fornoselha e Caixeira, onde residem entre 80 a 100 pessoas.
Já na Figueira da Foz, o vereador Manuel Domingues alertou que, caso o caudal continue a aumentar e coincida com a maré cheia, poderá existir risco acrescido. Para já, não estão previstas evacuações, mas o município mantém-se em contacto permanente com a APA e preparado para um eventual rebentamento de diques, reforçando a vigilância a partir da manhã de quarta-feira.
