Um estudo internacional concluiu que conteúdos produzidos ou amplificados por Inteligência Artificial (IA) podem aumentar a perceção de risco entre potenciais visitantes e reduzir a intenção de viajar para regiões associadas a contextos de conflito, com impactos diretos na atividade turística local, de acordo com nota de imprensa enviada à Central Press.
A investigação foi desenvolvida por uma equipa que integra investigadores da Universidade de Coimbra, da Universidade Shri Mata Vaishno Devi, da University of East London, da Universidade Central de Jammu e da Universidade de Bundelkhand. O trabalho analisou de que forma imagens, vídeos e notícias gerados ou disseminados com recurso a sistemas de IA contribuem para a construção de narrativas de insegurança.
O estudo centrou-se no impacto destes conteúdos no turismo em algumas regiões do Líbano, tendo em conta a proximidade com o conflito em Gaza. Segundo a docente da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e investigadora do Centro de Estudos de Geografia e Ordenamento do Território, Cláudia Seabra, a exposição a este tipo de conteúdos pode levar os potenciais visitantes a sobrestimar os riscos associados ao destino.
De acordo com a investigadora, a rápida circulação de informação em períodos de elevada incerteza, nem sempre devidamente verificada, pode influenciar negativamente a decisão de viajar. A equipa concluiu ainda que a IA não se limita a reproduzir conteúdos existentes, podendo também amplificar tendências sensacionalistas e contribuir para perceções distorcidas da realidade.
A investigação analisou o caso do Líbano por se tratar de um país cuja economia depende em parte do turismo e que se encontra próximo de um cenário de guerra. A diminuição do fluxo de visitantes, sublinha Cláudia Seabra, pode afetar diretamente negócios locais, emprego e o desenvolvimento regional.
Para realizar o estudo, os investigadores aplicaram uma abordagem sequencial de métodos mistos, combinando a análise de conteúdos de quatro jornais online internacionais, árabes e não árabes, com uma análise quantitativa baseada em questionários respondidos por 503 cidadãos libaneses.
Os resultados apontam para diferenças relevantes entre conteúdos gerados por IA e aqueles produzidos por meios de comunicação tradicionais. Enquanto o jornalismo profissional tende a seguir critérios editoriais, verificação de fontes e contextualização geográfica e política, os conteúdos disseminados com recurso a IA, muitas vezes nas redes sociais, podem replicar padrões sensacionalistas, descontextualizar acontecimentos ou apresentar cenários plausíveis, mas não confirmados.
Segundo a investigadora da Universidade de Coimbra, esta distinção torna-se particularmente crítica em contextos de conflito, onde a difusão de imagens e narrativas violentas pode alargar a perceção de risco a regiões que não estão diretamente afetadas. Como consequência, os utilizadores expostos a esse tipo de conteúdos tendem a desenvolver perceções mais negativas e generalizadas sobre o destino.
A análise dos dados indica ainda que a desinformação gerada com recurso a IA, incluindo imagens manipuladas, influenciou de forma significativa a perceção de risco dos utilizadores durante os conflitos, amplificando o medo e desincentivando o turismo local no Líbano. O estudo conclui que a confiança nesses conteúdos, quando não acompanhada de consciência crítica sobre a sua origem, está associada a maiores níveis de ansiedade e a uma menor intenção de viajar.
Perante estes resultados, os investigadores defendem a necessidade de reforçar estratégias de comunicação mais transparentes e baseadas em dados verificados, bem como promover a literacia digital dos utilizadores, de forma a reduzir os efeitos negativos da desinformação amplificada por sistemas de IA.
