Um estudo, liderado pela Universidade de Coimbra (UC), revela que o sofrimento emocional associado às alterações climáticas pode desempenhar um papel importante na promoção de comportamentos pró-ambientais. Os resultados deste estudo podem ter importantes implicações no desenvolvimento de estratégias eficazes de comunicação e de promoção de comportamentos ambientais, de acordo com nota de imprensa enviada à Central Press.
Desenvolvido no âmbito da linha de investigação em Psicologia das Alterações Climáticas do Instituto de Psicologia Médica da Faculdade de Medicina da UC (FMUC), esta investigação analisou a relação entre traços psicológicos positivos, como valores pró-sociais e preocupação ambiental, e a adoção de comportamentos sustentáveis, procurando compreender de que forma as reações emocionais à crise climática influenciam essa relação.
“Com base numa amostra de 577 adultos da população portuguesa, analisámos de que forma características pessoais positivas – como empatia, altruísmo e ligação à natureza – se relacionam com a adoção de comportamentos pró-ambientais”, explica a equipa de investigação. “Os resultados mostram que pessoas com níveis mais elevados de empatia, altruísmo e conexão com a natureza tendem a adotar mais comportamentos pró-ambientais. Particularmente interessante foi a evidência de que o efeito destes atributos não é apenas direto, também ocorre indiretamente através das emoções despertadas pelas alterações climáticas”, partilham.
Ou seja, o estudo demonstra que “níveis moderados de preocupação e de mal-estar emocional relacionados com as alterações climáticas funcionam como motores de ação: quando as pessoas se sentem preocupadas ou emocionalmente afetadas pelo problema, têm maior probabilidade de adotar comportamentos sustentáveis, como por exemplo reduzir o consumo de recursos, optar por meios de transporte mais ecológicos ou apoiar políticas ambientais”, revelam Ana Telma Pereira e Carolina Cabaços, que coordenaram este estudo.
“Por outro lado, quando o sofrimento psicológico associado às alterações climáticas atinge níveis que interferem com o funcionamento diário, deixa de ter um efeito motivador e pode mesmo tornar-se paralisante e prejudicial”, alertam as investigadoras da Universidade de Coimbra.
Os resultados deste estudo contribuem, assim, para o conhecimento sobre os fatores psicológicos que influenciam a resposta da sociedade às alterações climáticas, oferecendo novos dados sobre a relação entre traços individuais, emoções e comportamento ambiental. “As conclusões deste estudo têm implicações importantes para a comunicação e intervenção em saúde mental e ambiente, sugerindo que estratégias que reforcem a ligação à natureza, fomentem atitudes pró-sociais e valorizem emoções construtivas face às alterações climáticas podem contribuir para mobilizar a sociedade para a ação climática, sem agravar o sofrimento psicológico”, avança a equipa de investigação.
O Instituto de Psicologia Médica da FMUC tem vindo a dedicar-se ao estudo da psicologia das alterações climáticas, o ramo da psicologia que investiga os comportamentos e processos psicossociais relacionados com a crise climática e envolvidos na sua mitigação e adaptação. Num estudo anterior, publicado em 2024, a equipa conseguiu demonstrar que “pessoas com níveis mais elevados de perfeccionismo tendem a apresentar mais preocupação relacionada com as alterações climáticas, mais ansiedade em relação ao futuro (que antecipam como ‘negro’) e mais perturbação psicológica relacionada com as alterações climáticas”, avançam Ana Telma Pereira e Carolina Cabaços.
“O artigo que publicámos em 2024 fornece contributos para a compreensão dos fatores psicológicos implicados na adaptação às alterações; já o artigo de 2026 pode ser particularmente útil para a melhoria da mitigação das alterações climáticas, sendo ambos importantes para a promoção de comportamentos ambientais e para a compreensão da forma como as pessoas lidam com as alterações climáticas”, rematam.
A investigação foi desenvolvida pela estudante de doutoramento e assistente convidada da FMUC, Carolina Cabaços, que é também médica psiquiatra; pela investigadora da FMUC, Ana Telma Pereira; pelo docente da Faculdade de Medicina da UC e diretor do Instituto de Psicologia Médica da FMUC, António Macedo; e pela assistente convidada da FMUC e médica interna de psiquiatra da Unidade Local de Saúde de Coimbra, Margarida Baptista.