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A liberdade de Raffa

Carolina Barata/
27/06/2026, 09h52
/
16 min
Raffa Delgado @Carolina Barata Central Press
Raffa Delgado @Carolina Barata Central Press

Durante seis horas, a Central Press acompanhou Raffa Delgado na preparação para o Drag Brunch Portugal. Entre pincéis, perucas e memórias, o artista brasileiro falou sobre a pessoa que existe antes da personagem e sobre a arte que lhe devolveu a vontade de viver.

Antes da Raffa

Rafael Delgado inicia a preparação para o Drag Brunch Portugal @Carolina Barata Central Press

Sentado no chão de um pequeno quarto emprestado por um amigo, em Coimbra, Rafael Delgado começa a espalhar dezenas de produtos de maquilhagem à sua volta. Não há camarins iluminados nem espelhos rodeados de lâmpadas, como tantas vezes se imagina quando se pensa no universo drag. Há apenas uma clarabóia por onde entra a luz da tarde, uma mala aberta onde se acumulam bases, sombras, pincéis e pestanas postiças, perucas cuidadosamente protegidas e espaço suficiente para que outras duas pessoas partilhem aquele momento: a drag queen Brianna Alexandra e o Miguel, companheiros de palco no Drag Brunch Portugal.

As caixas de maquilhagem ocupam o chão, os pincéis misturam-se com pestanas e unhas postiças, as paletes dividem espaço com pequenas embalagens de cola para pestanas e sobrancelhas. No meio daquela aparente confusão, Rafael movimenta-se com a tranquilidade de quem conhece exatamente o lugar de cada objeto.

Pincéis, sombras, pestanas postiças e bases fazem parte do ritual que antecede cada atuação @Carolina Barata Central Press

"Eu gosto desta bagunça", comenta, enquanto procura um pincel sem sequer desviar o olhar da conversa.

Lá fora, a chuva começa a cair. Dentro daquele quarto, ainda faltam cerca de cinco horas para o espetáculo, mas a preparação já começou, reza-se para que o tempo mude. E percebe-se rapidamente que, para Raffa Delgado, o espetáculo nunca começa apenas no palco. Começa ali. No silêncio.

Ao contrário do que seria de esperar, não há música ambiente. O quarto permanece quase sempre silencioso, interrompido apenas pela conversa. Enquanto compõe as sobrancelhas, Rafael responde às perguntas com calma. Sempre que a conversa exige mais atenção, para o que está a fazer, vira-se de frente e fala demoradamente. A maquilhagem pode esperar.

Essa disponibilidade revela, desde cedo, uma característica que contrasta com a imagem exuberante que o público conhece em palco.

"Sou um homem tímido." A frase surpreende-nos.

Dentro de poucas horas será precisamente aquela pessoa quem conduzirá um espetáculo perante dezenas de espectadores, fará piadas, interagirá com o público e apresentará outras artistas. Mas, sentado no chão, de rosto ainda completamente limpo, Rafael fala num tom baixo, sorri de forma contida e escolhe cuidadosamente cada palavra.

Num pequeno quarto emprestado por um amigo, maquilhagem espalha-se pelo chão @Carolina Barata Central Press

"Para algumas pessoas sou uma pessoa gay. Para quem conhece melhor a comunidade LGBTQIA+, sou androssexual. Mas acima de tudo vejo-me como um artista."

A arte entrou-lhe na vida muito antes da drag. Ainda criança, já trabalhava como palhaço em festas infantis. Passou pelo ballet, pelo teatro, pela rádio e foi descobrindo diferentes formas de subir a um palco. Enquanto muitos rapazes da sua idade passavam as tardes a brincar, Rafael dividia o tempo entre os estudos e o trabalho.

"Perdi muito da minha juventude, mas não me arrependo."

Não há qualquer sinal de amargura quando o diz. Pelo contrário. Conta o percurso com serenidade, como quem olha para trás e aceita que todas aquelas experiências acabaram por construir o artista que é hoje.

Foi apenas aos 19 anos que a drag entrou definitivamente na sua vida. Depois de se afastar da igreja que frequentava, um amigo convidou-o para participar numa Marcha do Orgulho, em Cabo Frio, no Brasil. Uma tia e uma prima ajudaram-no a preparar-se para sair montado pela primeira vez.

"Fui montado do jeito que eu achava que era para ser."

Depois da marcha, entrou num pequeno quiosque junto à praia onde decorriam espetáculos de drag queens. Ficou a observar durante largos minutos.

"Olhei para elas e pensei: eu não quero só vestir-me. Quero estar no lugar delas."

Dias depois participou num concurso de drag queens na região e venceu. O prémio trouxe os primeiros convites para atuar, mas, mais importante do que isso, trouxe-lhe a certeza de que tinha encontrado um lugar onde fazia sentido estar.

A personagem não nasceu logo como Raffa Delgado. Primeiro chamou-se Raphaelly Slim, uma adaptação inglesa. Só anos mais tarde, já em Portugal, decidiu recuperar o próprio nome.

"Parecia demasiado americanizado. Sou brasileiro, falo português. Preferi usar Delgado."

Enquanto a base desaparece sob novas camadas de maquilhagem, o rosto começa lentamente a transformar-se. Primeiro desaparecem as sobrancelhas. Depois surgem novos contornos. Os olhos tornam-se maiores. Cada gesto é repetido com precisão, como se a maquilhagem fosse também uma forma de meditação.

A transformação acontece lentamente. Cada etapa da maquilhagem aproxima Rafael da personagem que criou há catorze anos @Carolina Barata Central Press

É impossível não reparar que a transformação acontece tanto no espelho como nas palavras. Durante quase toda a conversa, Rafael fala da personagem na terceira pessoa.

"A Raffa é muito mais desinibida do que o Rafa." "O Rafa é extremamente tímido. A Raffa faz coisas que o Rafa nunca faria."

Por momentos parece que fala de duas pessoas diferentes. Mas não fala. Fala de duas formas de existir.

A arte que salva

Naquele quarto, onde o espelho já devolve um rosto quase irreconhecível, a conversa abranda pela primeira vez. Até ali falara da infância, dos palcos, da mudança para Portugal e do nascimento da personagem com uma serenidade quase constante. Mas quando a pergunta é sobre o que significa o drag, o silêncio instala-se durante alguns segundos.

A resposta chega: "A drag é a liberdade do Rafa." A frase parece simples, mas carrega anos de história.

Quando chegou a Portugal, interrompeu a carreira artística que construíra no Brasil. Como tantos imigrantes, precisou de recomeçar praticamente do zero. Vieram novos empregos, novas rotinas, uma realidade financeira muito diferente daquela que deixara para trás e, pouco a pouco, um sentimento de isolamento.

Foi nessa altura que surgiram a depressão e várias tentativas de suicídio. Conta-o sem dramatizar. Não procura despertar pena nem transformar a história num momento de choque. Limita-se a explicar que houve uma fase da vida em que deixou de reconhecer sentido no futuro.

"Só melhorei quando voltei ao drag."

"A drag é a liberdade do Raffa", resume o artista @Carolina Barata Central Press

É impossível ouvir aquelas palavras e continuar a olhar para a maquilhagem apenas como maquilhagem. Cada retoque deixa de ser um gesto estético para passar a ser um gesto de reconstrução.

"Eu não faço do drag a minha profissão. Eu faço drag porque amo. É a arte que quero levar para a minha vida."

Enquanto fala, pede aos amigos para agarrar uma das suas perucas. É feita de cabelo humano brasileiro e custou cerca de 900 euros. Trouxe ainda outra, também de cabelo humano, avaliada em cerca de 600 euros.

Perucas, figurinos e acessórios representam um investimento de centenas de euros e fazem parte do trabalho invisível por trás de cada espetáculo @Carolina Barata Central Press

Os preços deixam qualquer um/uma surpreendido/a. Mas rapidamente explica que as perucas são apenas uma pequena parte do investimento. Os vestidos podem custar cerca de 30 euros, como podem ultrapassar os 600 euros, joias, sapatos, maquilhagem, acessórios e horas de preparação que nunca chegam a ser vistas pelo público.

"Normalmente demoro entre duas a três horas para me maquilhar."

No chão continuam espalhados pincéis, sombras, pestanas, embalagens abertas e pequenas ferramentas.

É um trabalho invisível. Quando o público aplaude um número de lip sync, raramente imagina tudo o que aconteceu antes daquele momento. Nem sempre esse trabalho é recompensado.

Apesar de atuar regularmente, Raffa admite que viver exclusivamente da arte drag continua a ser um desafio em Portugal.

"Houve um espetáculo em Vigo em que recebi um cachê de 200 euros. Aqui ainda estamos muito longe dessa realidade."

Conhece bem essa diferença porque, além de artista, é também quem organiza o Drag Brunch Portugal. É ele quem contacta artistas, procura espaços, gere despesas e tenta garantir que todas recebem um pagamento, mesmo quando as contas não ajudam.

"Muitas vezes tiro dinheiro do meu próprio salário para conseguir pagar às outras drags." O objetivo nunca foi enriquecer. Foi criar oportunidades.

Quando chegou a Coimbra percebeu que existiam festas direcionadas para a comunidade LGBTQIA+, mas praticamente não havia espetáculos de drag. Decidiu mudar essa realidade.

Primeiro surgiu a "Quarta Queer". Mais tarde nasceu o Drag Brunch Portugal, um projeto que começou na cidade e que hoje já passou também pela Guarda e por Almada.

"O talento não depende do tempo que uma pessoa faz drag", explica. "Às vezes está num bom lip sync, numa boa comédia ou na forma como comunica com o público."

É precisamente por isso que faz questão de convidar artistas que estão agora a dar os primeiros passos. Quer que tenham as oportunidades que muitos não tiveram.

Enquanto coloca cuidadosamente a peruca, o rosto transforma-se pela última vez. O Rafael tímido continua ali. Mas já quase não se vê. Quem ocupa agora o espelho é a Raffa Delgado.

Depois de cerca de duas horas de preparação, Raffa Delgado está pronta para subir ao palco @Carolina Barata Central Press

Daqui a poucos minutos, a chuva obrigará a mudar os planos. O espetáculo deixa de acontecer na Escadaria e transfere-se para o Empório do Tuca, porque é um sítio mais abrigado.

Nada disso parece preocupar a artista. Há muito que aprendeu que um palco pode nascer em qualquer lugar.

Quando a Raffa entra em cena

O espetáculo, inicialmente previsto para a Escadaria de São Bartolomeu, acabou por ser transferido para o Empório do Tuca, o espaço onde nasceu o projeto que hoje se afirma como Drag Brunch Portugal. O contratempo não retirou público nem entusiasmo. Pelo contrário. À medida que as cadeiras se iam ocupando, a expectativa crescia entre quem já conhecia o evento e quem o descobria pela primeira vez.

Pouco antes das 18 horas, Raffa Delgado fixa a maquilhagem com laca uma última vez. Horas antes, naquele pequeno quarto, descrevera-se como um homem tímido. Agora, bastam poucos passos para que a timidez fique nos bastidores.

Raffa Delgado fixa a maquilhagem com laca antes do espetáculo @Carolina Barata Central Press

A Raffa entra em cena.

Durante dois blocos de lip sync, sucedem-se interpretações marcadas pela expressão corporal, pela teatralidade e pela proximidade com o público. Entre músicas, improvisos e momentos de humor, as gargalhadas preenchem a esplanada. Há quem cante, quem acompanhe o ritmo com palmas e quem responda às provocações lançadas pelas drags. A barreira entre palco e plateia parece que nunca existiu.

É precisamente essa proximidade que distingue o Drag Brunch Portugal. Mais do que um espetáculo, é um espaço de encontro.

Entre atuações, Raffa apresenta cada artista, brinca com quem está sentado nas primeiras filas e cria um ambiente onde todos parecem conhecer-se, mesmo quando se encontram pela primeira vez.

Mas há um momento discreto que ajuda a compreender a realidade por trás daquele projeto.

No final de todas as atuações, uma pequena cesta em forma de carroça percorre as mesas. Não há obrigatoriedade de contribuir. Quem quiser pode deixar uma ajuda para apoiar a continuidade da iniciativa.

Horas antes, ainda sentado no chão, rodeado de maquilhagem, Raffa explicara que muitas vezes é do próprio bolso que sai parte do dinheiro necessário para pagar as artistas convidadas.

"O meu sonho é conseguir entregar um cachê de 200 euros a cada drag", confessara. "Ainda não conseguimos." Apesar das dificuldades, continua a insistir. Não por dinheiro. Mas porque acredita que a arte drag merece ser tratada como qualquer outra profissão artística.

"Falta acreditarem que somos artistas. Falta sermos valorizados como trabalhadores."

A tarde aproxima-se do fim. As últimas músicas terminam, o público despede-se das artistas e as conversas prolongam-se entre fotografias, abraços e palavras de agradecimento.

Depois de horas a interpretar, apresentar e sorrir, o cansaço aparece. "Depois do show estou exausto", admite.

Raffa Delgado sem sapatos depois do espetáculo @Carolina Barata Central Press

Perguntámos-lhe quem fica quando a personagem deixa o palco. Sorri antes de responder. "Fica o Rafa. O menino que olha para a frente e acredita que o sonho é possível."

Cinco horas antes, sentado no chão de um quarto iluminado apenas pela luz que entrava pela clarabóia, Rafael Delgado espalhava pincéis, sombras e outros produtos à sua volta. A maquilhagem ainda não lhe cobria o rosto e a Raffa existia apenas na imaginação de quem conhecia o resultado daquela transformação.

Agora, terminado o espetáculo, percebe-se que a maquilhagem nunca foi a parte mais importante. O verdadeiro processo de transformação acontece muito antes do primeiro aplauso.

Acontece quando um rapaz tímido encontra, numa personagem construída com arte, coragem e dedicação, a liberdade para ser quem é.

Antes de nos despedirmos, perguntámos-lhe o que diria ao jovem Rafael que, há catorze anos, decidiu vestir-se de drag pela primeira vez.

A resposta surge sem hesitar. "Começa. Vai. Porque vais conseguir."

Talvez seja essa a melhor forma de resumir a história de Raffa Delgado.

Raffa Delgado no final do espetáculo @Carolina Barata Central Press

Não a história de uma personagem. Mas a história de uma pessoa que encontrou na arte drag uma forma de sobreviver, de sonhar e, sobretudo, de voltar a acreditar em si próprio.

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