Operação internacional levou à detenção de 78 pessoas em Espanha e na Argélia e permitiu desarticular uma estrutura criminosa com ramificações em vários países europeus
A Polícia Judiciária participou numa operação internacional de grande dimensão que levou ao desmantelamento de uma organização criminosa transnacional dedicada ao tráfico de pessoas, auxílio à imigração ilegal, tráfico de estupefacientes e armas e a outras actividades ilícitas desenvolvidas no espaço europeu.
A operação, denominada SALEM, foi liderada pelo Cuerpo Nacional de Policía e pela Guardia Civil de Espanha, com o apoio da Europol, contando ainda com a participação da Polícia Judiciária portuguesa e das autoridades policiais de França e da Polónia.
Segundo a informação divulgada pela Polícia Judiciária, a operação culminou na detenção de 78 pessoas em Espanha e na Argélia e na realização de 17 buscas, todas em território espanhol. Foram ainda apreendidas 18 embarcações de alta velocidade, utilizadas pela organização nas suas operações.
A investigação revelou uma estrutura criminosa com capacidade para actuar em diferentes áreas do crime organizado e que, além das suas próprias actividades, assegurava meios e logística a outras organizações criminosas sediadas na Europa, nomeadamente em França e na Bélgica.
Uma estrutura com actividade em vários países
O centro operacional da organização encontrava-se em Espanha, com actividade identificada nas zonas de Almeria, Múrcia, Cartagena e Alicante, além de ligações a Ibiza e ao sul de França, designadamente à cidade portuária de Marselha.
A informação disponibilizada pela Guardia Civil aponta para uma estrutura organizada em diferentes níveis, incluindo responsáveis pela direcção e financiamento, pilotos e transportadores, bem como colaboradores ligados à logística, abastecimento de combustível, vigilância, captação de pessoas e gestão financeira.
A organização utilizava uma rede de meios que incluía embarcações de alta velocidade, veículos, sistemas de comunicação cifrada, telefones por satélite, dispositivos GPS e antenas de comunicação, permitindo coordenar operações em diferentes territórios.
A investigação, iniciada em 2023, identificou ainda ramificações operacionais em França, Portugal, Itália e Polónia, de acordo com as autoridades espanholas.
Tráfico de pessoas e transporte de droga pelo Mediterrâneo
Um dos aspectos centrais da actividade da organização estava relacionado com o transporte marítimo de pessoas e de estupefacientes.
Segundo a Guardia Civil, a estrutura utilizava embarcações rápidas para transportar droga de Espanha para a Argélia e aproveitava o trajecto de regresso para transportar migrantes em situação irregular para território espanhol. As autoridades espanholas documentaram 64 episódios migratórios, através dos quais atribuem à organização a entrada de mais de 2.000 migrantes em Espanha.
A investigação aponta para a existência de um modelo de negócio baseado nesses dois fluxos. As mesmas embarcações podiam ser utilizadas para transportar estupefacientes num sentido e pessoas no sentido inverso, aumentando a rentabilidade da estrutura criminosa.
De acordo com os dados divulgados pela Guardia Civil, a organização terá obtido mais de 24 milhões de euros com o transporte de migrantes, cobrando, em alguns casos, até 12 mil euros por pessoa. Estes valores e estimativas são atribuídos pelas autoridades espanholas à investigação realizada no âmbito da operação.
A informação espanhola descreve ainda condições particularmente perigosas nas travessias, com recurso a embarcações rápidas, transporte de passageiros em condições de sobrelotação e, em muitos casos, sem equipamentos de segurança adequados.
Droga, armas e meios tecnológicos apreendidos
Durante a operação foram apreendidos diversos bens e materiais associados à actividade criminosa.
Segundo a Guardia Civil, entre os bens encontrados estão 15 mil comprimidos de MDMA, 61 quilogramas de haxixe, 500 gramas de cocaína e 40 gramas de metanfetamina, além de dinheiro, armas, munições, veículos e centenas de litros de combustível. Foram também apreendidos equipamentos de geolocalização e comunicações por satélite.
As autoridades espanholas indicam ainda que foram bloqueados preventivamente bens associados a elementos da organização, incluindo contas bancárias, imóveis e veículos.
A Polícia Judiciária portuguesa, no seu comunicado, destaca igualmente a apreensão de mais de 25 mil euros em dinheiro, armas e munições, produto estupefaciente, equipamentos de telecomunicações encriptados, telefones por satélite, dispositivos GPS e antenas parabólicas.
A dimensão da estrutura levou as autoridades a enquadrá-la num modelo próximo do conceito de “crime as a service”, no qual uma organização disponibiliza transporte, logística, meios e outros serviços a diferentes grupos criminosos.
18 embarcações de alta velocidade apreendidas
Um dos principais resultados materiais da operação foi a apreensão de 18 embarcações de alta velocidade.
Segundo a Guardia Civil, tratava-se de embarcações de grande porte, algumas equipadas com três ou quatro motores, com mais de oito metros de comprimento e capacidade para atingir elevada velocidade. O valor global das embarcações apreendidas foi estimado pelas autoridades espanholas em mais de cinco milhões de euros.
A utilização destes meios estava directamente relacionada com a capacidade da organização para realizar travessias rápidas entre as duas margens do Mediterrâneo e reduzir o tempo de exposição às autoridades.
A investigação espanhola identificou também um elevado nível de violência associado à protecção das embarcações, dos carregamentos e da própria estrutura criminosa. As autoridades afirmam ter detectado ameaças, coacções, agressões e outras formas de intimidação.
78 detenções e 27 prisões preventivas
Na fase final da operação foram detidas 78 pessoas, sendo 77 em Espanha e uma na Argélia, segundo os dados divulgados pela Guardia Civil. Entre os detidos encontram-se elementos que as autoridades consideram ocupar posições de liderança dentro da estrutura.
As autoridades espanholas indicam que 27 dos detidos ficaram em prisão preventiva.
Os suspeitos são investigados, entre outros ilícitos, por alegada pertença a organização criminosa, tráfico de pessoas, tráfico de droga, tráfico de armas, munições e explosivos, armazenamento e transporte ilícito de combustível, roubos, ameaças, extorsão, sequestro, contrabando e branqueamento de capitais.
A responsabilidade criminal individual deverá, contudo, ser determinada no âmbito dos respectivos processos judiciais.
Cooperação policial internacional
A operação SALEM evidencia a dimensão transnacional de redes criminosas que utilizam o espaço europeu e o Mediterrâneo para desenvolver actividades ilícitas em diferentes países.
A participação portuguesa, através da Polícia Judiciária, integrou uma investigação coordenada pelas autoridades espanholas e apoiada pela Europol, envolvendo ainda forças policiais de França e da Polónia. A Guardia Civil identifica expressamente a Polícia Judiciária portuguesa entre as entidades que participaram na operação.
A cooperação internacional assume particular importância neste tipo de investigação, uma vez que as diferentes fases da actividade criminosa podem ocorrer em países distintos: recrutamento e transporte de pessoas, aquisição e circulação de droga, movimentação de dinheiro, armazenamento de equipamentos e utilização de estruturas logísticas.
A operação SALEM representa, neste contexto, mais uma acção coordenada contra uma rede com actividade em vários países europeus e no Norte de África, atingindo simultaneamente a componente humana, logística e financeira da organização.

