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Marianna França: “Tudo é político, até o descanso”

Carolina Barata/
09/09/2026, 10h20
/
10 min
Marianna França @Raquel Pelicano
Marianna França @Raquel Pelicano

Marianna França, organizadora do encontro “Cultura é um Ato Político”, defende que criar, consumir e participar na cultura são também formas de intervenção e transformação social.

E se criar, fotografar, cantar, escrever ou simplesmente escolher aquilo que consumimos também forem formas de intervenção política?

É a partir desta ideia que nasce “Cultura é um Ato Político”, encontro internacional que reúne, entre 9 e 12 de setembro, em Coimbra, artistas, jornalistas, ativistas, investigadores, estudantes e agentes culturais de Portugal e do Brasil para discutir a cultura enquanto ferramenta de resistência, transformação social e defesa dos direitos humanos.

Promovida pela Amnistia Internacional Portugal, através do Grupo de Ativistas de Coimbra, a iniciativa foi idealizada e coordenada por Marianna França, jornalista cultural, doutoranda da Universidade de Coimbra e ativista da Amnistia Internacional.

Ao longo de quatro dias, o encontro propõe debates, oficinas, intervenções artísticas, ações públicas e momentos dedicados à memória e à resistência, procurando aproximar a cultura da participação cidadã e mostrar que a transformação social também pode começar fora dos espaços tradicionalmente associados à política.

A Central Press falou com Marianna França sobre a importância de pensar a cultura como uma forma de resistência e sobre o que espera deixar em Coimbra depois destes quatro dias.

CP: “Cultura é um Ato Político” é o nome do encontro. É possível fazer cultura sem tomar uma posição?

MF: Eu acredito que não, porque tudo é político, até o descanso é político. Hoje em dia a gente está inserida numa dinâmica capitalista e existe uma pressão constante para produzir. O filósofo Byung-Chul Han explica isso muito bem em Sociedade do Cansaço: quando a gente não acompanha essa lógica de produtividade, existe quase uma sensação de fracasso.

Até o entretenimento e o ato de parar a própria vida podem ser políticos. O capitalismo não permite que a gente descanse sem sentir alguma culpa, como se não estivéssemos produzindo. O ócio criativo acaba sendo um grande luxo.

Por isso, não acredito que seja possível fazer cultura sem tomar uma posição. O próprio ato de criar, de ir a um concerto ou de escolher consumir determinada obra cultural já carrega uma dimensão política.

CP: Porque sentiram que era importante promover esta discussão agora e em Coimbra?

MF: Eu faço parte do grupo da Amnistia Internacional de Coimbra e a iniciativa partiu de mim. Sou jornalista há cerca de dez anos e trabalho com jornalismo cultural há nove. Ao mesmo tempo, trabalho com cultura no meio académico e estudo Machado de Assis, um autor que, apesar de estar inserido na Escola Realista, tal como Eça de Queiroz, também permite pensar muito sobre questões relacionadas aos Direitos Humanos.

Quando cheguei a Coimbra, encontrei uma cidade que sempre foi uma grande referência de Educação, tanto para Portugal como para o Brasil, muito por causa da Universidade de Coimbra. Mas também comecei a perceber uma cidade muito presa a determinadas tradições e ao passado.

Enquanto aluna de doutoramento, acompanhei nos últimos cinco anos algumas dessas dinâmicas e comecei a questionar que tipo de cultura está sendo produzida em Coimbra. A praxe, por exemplo, continua tendo um espaço muito forte, assim como determinadas tradições da Queima das Fitas, sem que exista necessariamente uma reflexão sobre os seus aspetos mais machistas e patriarcais.

Ao mesmo tempo, espaços que historicamente foram lugares de resistência e de acolhimento de minorias estão sendo colocados em causa. É o caso das repúblicas, que fazem parte da própria identidade cultural e estudantil de Coimbra.

Essa discussão acontece também num contexto internacional em que a gente vê uma onda muito forte de autoritarismo e governos de extrema-direita chegando ao poder e colocando em causa iniciativas culturais.

E existe ainda uma preocupação com a forma como a informação chega às pessoas. Enquanto jornalista, sinto que muitas vezes o jornalismo em Portugal está muito preso ao clickbait e ao sensacionalismo. Tivemos o exemplo do apagão, em que muitas notícias contribuíram para deixar a população ainda mais apreensiva, sem que depois existisse necessariamente uma reflexão sobre a forma como a informação foi transmitida.

Então, para mim, o evento também nasce dessa vontade de combater a desinformação e mostrar, a partir da minha experiência enquanto jornalista, que a cultura pode ser transformadora.

A gente quer mostrar à sociedade civil que não precisa esperar por uma grande instituição ou por um político para produzir mudança. A cultura pode ser uma ferramenta que qualquer pessoa pode utilizar no seu próprio contexto.

CP: De que forma pode a cultura ser uma ferramenta de resistência e de transformação social?

MF: A história mostra isso de várias formas. Em Portugal, durante a ditadura de Salazar, tivemos músicas que ajudaram a mobilizar pessoas para irem para a rua protestar. No Brasil, durante a ditadura militar, a música popular brasileira também foi uma das grandes formas de resistência.

Artistas como Caetano Veloso, Chico Buarque e Bethânia produziram obras que ajudaram a conscientizar a população. Alguns foram presos, outros tiveram de se exilar para escapar da perseguição política.

Mas a cultura não precisa necessariamente estar ligada a um momento histórico de ditadura para provocar reflexão. A gente pode entrar num cinema e assistir a um filme que nos faça questionar aquilo que conhecemos ou que traga de volta uma discussão que estava esquecida.

Um exemplo recente no Brasil é “Ainda Estou Aqui”, que recupera a memória da ditadura e das pessoas que desapareceram naquele período, trazendo novamente para o debate público questões relacionadas à repressão, às famílias atingidas e à memória.

Outro exemplo é “Que Horas Ela Volta?”, que discute a realidade das empregadas domésticas no Brasil e as relações de classe existentes dentro das famílias.

A arte tem esse poder de colocar diante de quem está consumindo uma realidade que muitas vezes permanece invisível. Quando é acessível, a cultura pode mudar vidas porque permite que qualquer pessoa pense, reflita e se conscientize.

E a cultura também é educação. Quanto mais a gente entra em contato com diferentes obras, histórias e perspectivas, mais consegue compreender os problemas estruturais da sociedade e pensar em formas de enfrentá-los.

Eu vejo isso também na minha experiência profissional na Revista Traços, onde trabalho há nove anos. A revista tem uma frente editorial dedicada às pautas culturais de Brasília, mas também desenvolve um projeto com pessoas em situação de vulnerabilidade, os chamados porta-vozes da cultura, que vendem a revista e utilizam essa renda para suprir necessidades básicas.

Nesse projeto, a cultura acaba criando conexões entre artistas, comunidade e pessoas em situação de vulnerabilidade. É um exemplo de como ela pode deixar de ser apenas uma expressão artística e se transformar numa ferramenta concreta de inclusão e transformação social.

CP: O encontro junta artistas, jornalistas, ativistas, investigadores e estudantes. O que pode resultar deste cruzamento de diferentes áreas e perspetivas?

MF: A ideia desse cruzamento é colocar diferentes pessoas para discutir o que pode ser feito para que a cultura, tanto em Portugal como no Brasil, seja uma ferramenta de ativismo que possa ser incorporada ao nosso cotidiano.

Hoje em dia, compartilhar um post não é só compartilhar um post. Tirar uma foto não é só tirar uma foto. Tudo tem um significado e pode produzir alguma consequência, mesmo que a gente nem sempre perceba isso.

Queremos trazer essa consciência para a sociedade civil, tanto para quem já se interessa por cultura como para quem não se interessa. Mostrar que a cultura pode ser uma ferramenta de participação e que o ativismo não precisa acontecer apenas nos espaços tradicionalmente associados à política.

Também queremos mostrar que ninguém precisa se sentir sozinho. Às vezes existem pessoas que têm vontade de fazer alguma coisa, mas não sabem por onde começar ou acreditam que não têm capacidade para provocar uma mudança.

O encontro pretende ser também esse espaço de acolhimento, de troca e de construção coletiva. Num contexto em que somos bombardeados por notícias sensacionalistas, é importante criar um espaço onde diferentes pessoas possam acreditar que as coisas podem mudar e discutir outras formas de olhar para a realidade.

Quando eu levei essa ideia para o grupo da Amnistia Internacional de Coimbra, todo mundo acreditou muito no projeto. Eu não conseguiria tirar essa ideia do papel sem o grupo, porque somos voluntários, mas fazemos muito mais do que apenas o voluntariado.

CP: No final destes quatro dias, o que gostariam que ficasse em Coimbra e nas pessoas que participarem no encontro?

MF: A gente quer plantar uma semente. Queremos despertar nas pessoas a percepção de que não precisamos necessariamente estar inseridos no contexto político tradicional para fazer ativismo.

A cultura pode ser uma dessas ferramentas. Você não precisa ser um político para provocar uma mudança. Pode começar dentro do seu próprio contexto social e pessoal e, a partir daí, conectar-se com outras pessoas que também querem transformar alguma coisa.

No final, o que a gente quer é conscientizar as pessoas e mostrar que a mudança também pode começar através daquilo que cada um de nós cria, consome, compartilha e escolhe valorizar.

O “Cultura é um Ato Político” decorre de 9 a 12 de setembro em vários espaços da cidade de Coimbra.

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