O primeiro dia do encontro internacional “Cultura é um Ato Político” reuniu artistas, jornalistas, ativistas e representantes de espaços culturais para discutir a relação entre cultura, direitos humanos, informação e resistência.
Coimbra recebeu, esta quarta-feira, 9 de setembro, o primeiro dia do encontro internacional “Cultura é um Ato Político”, uma iniciativa promovida pela Amnistia Internacional Portugal, através do Grupo de Ativistas de Coimbra, que pretende discutir o papel da cultura na defesa dos direitos humanos e na transformação social. Ao longo do dia, a Casa da Cultura acolheu a cerimónia de abertura e uma mesa temática dedicada à cultura enquanto instrumento de promoção dos direitos humanos, seguindo-se uma conversa sobre os espaços de resistência na cidade.

Na cerimónia de abertura, Giovanna Cutrim Bez Batti, coordenadora do Grupo Local da Amnistia Internacional em Coimbra, destacou a intenção de mostrar “como a cultura pode ser uma ferramenta de transformação social”, sublinhando também a dimensão de intercâmbio entre Portugal e Brasil que está na base da iniciativa.
Também presente na abertura, Manuel Rocha, do Ateneu Coimbra, salientou que “a cultura é um bem essencial de todas as pessoas e de todas as comunidades”, recuperando a própria história do Ateneu enquanto espaço associado à cultura e à resistência.
A cerimónia contou ainda com Marianna França, jornalista cultural e uma das responsáveis pela organização do encontro, que apresentou o trabalho desenvolvido pela Revista Traços, publicação brasileira que alia jornalismo cultural a uma dimensão de intervenção social.
A tarde prosseguiu com a mesa temática “Cultura como um instrumento de promoção dos Direitos Humanos”, que reuniu representantes da Amnistia Internacional, da Revista Visão e da Revista Traços.

Para Luís Gouveia, membro da direção da Amnistia Internacional Portuguesa, a cultura desempenha, desde logo, um papel importante na difusão da informação. O dirigente lembrou, em entrevista à Central Press, o recurso histórico da própria organização a diferentes meios culturais para ampliar o alcance das suas mensagens e apontou a música como um exemplo da capacidade da cultura para chegar a públicos que, de outra forma, poderiam não ser alcançados.
“Pessoas que estão ligadas à cultura, que são politizadas também, que estão preocupadas com causas sociais, acabam funcionando como vozes para alcançar um público muito mais amplo”, afirmou.
Mas, para Luís Gouveia, a relação entre cultura e direitos humanos ultrapassa a transmissão de informação. A cultura pode também assumir uma função de resistência perante visões autoritárias e uniformizadoras da sociedade.
O dirigente da Amnistia Internacional defendeu que não existe uma cultura única ou uniforme e recorreu, entre outros exemplos, à língua mirandesa e à cultura cigana para ilustrar a diversidade cultural existente em Portugal. Na sua perspetiva, movimentos que defendem uma ideia restrita de nacionalidade podem entrar em conflito com essa diversidade.
A cultura surge, assim, como um espaço onde diferentes identidades e formas de expressão podem coexistir.
Questionado sobre a fronteira entre expressão artística e intervenção política, Luís Gouveia foi ainda mais direto: “O ativismo não é necessariamente cultural, mas a cultura é uma forma de ativismo.”
Para o dirigente, tanto o ativismo como a cultura implicam ação e intervenção na sociedade. “Qualquer forma de expressão, em última análise, a pessoa que se exprime por meio cultural, ela está apresentando também a sua forma de ver o mundo”, explicou.
Também em entrevista à Central Press, Giovanna Cutrim Bez Batti destacou a dimensão individual da cultura e a sua ligação à educação e ao desenvolvimento pessoal.
“A cultura juntamente com a educação transforma a vida das pessoas e molda a forma como nós vemos o mundo”, afirmou.
Para a coordenadora do Grupo Local da Amnistia Internacional em Coimbra, a cultura permite também desenvolver empatia e aceitar diferenças, assumindo um papel essencial na vida das pessoas. “A cultura é um bem essencial, tanto que é um direito humano”, defendeu.
Sobre a possibilidade de separar cultura e política, Giovanna Cutrim Bez Batti considera que essa separação é difícil. “Qualquer tipo de expressão cultural é uma forma política, porque tem sempre um porquê, uma origem, um significado, uma história”.
A relação entre cultura, informação e direitos humanos levou também a uma reflexão sobre o papel do jornalismo no atual contexto mediático.
Alexandra Correia, da Revista Visão, abordou a função do jornalismo enquanto ferramenta que permite distinguir a realidade e refletiu sobre as transformações que atravessam atualmente a profissão, nomeadamente a pressão do imediatismo e a forma como esta influencia tanto o trabalho jornalístico como a relação com as audiências

A discussão aproximou, assim, duas dimensões centrais do encontro, a necessidade de acesso a informação credível e o papel da cultura na construção de pensamento crítico e participação cívica.
Já no final do dia, o foco passou para a própria cidade, com a conversa “Espaços de resistência em Coimbra”, que reuniu Gustavo Bueno, da Pharmácia LGBT Club, Hellayne Santiago, do Atelier A Fábrica, Ana Castro e Mariana Miezza, da República das Marias.
A conversa procurou olhar para diferentes espaços que, através das suas atividades e comunidades, assumem uma dimensão de resistência social, cultural e política.

No caso da República das Marias, Ana Castro descreveu, em entrevista à Central Press, a casa como um espaço autogerido, transfeminista, anti-hierárquico, antiautoritário, antirracista e antifascista.
“As repúblicas no geral, mas a nossa casa principalmente, é uma casa autogerida, é transfeminista, é antiherárquica, é antiautoritária, é antirracista, é antifascista”, afirmou.
Ana Castro falou também do processo de despejo que, a República das Marias enfrenta por parte da Universidade de Coimbra, proprietária do imóvel.
A responsável explicou que a ameaça se mantém desde o ano passado e que o processo se encontra atualmente sobretudo no plano jurídico. Apesar da incerteza, deixou clara a intenção de manter a identidade e o caráter comunitário da casa.
“A gente não vai precisar de sair do prédio, mas se a gente precisar vai ter que ter todas as nossas exigências para que essa continuidade de identidade da casa fique.”
Para Ana Castro, a questão ultrapassa a própria República das Marias. O reconhecimento das repúblicas enquanto património da cidade e a sua proteção efetiva foram também questionados pela Central Press.

“Parece que temos de lembrar que somos património reconhecido”, afirmou, questionando a necessidade de estas estruturas terem de continuar a provar a sua existência e atividade para obter apoio.
A responsável considera que o desaparecimento das repúblicas representaria também uma perda para Coimbra, tendo em conta a sua ligação à história do movimento estudantil e às diferentes dimensões políticas, sociais e culturais da cidade.
“Coimbra perde uma parte da identidade dela”, afirmou.
Ana Castro recordou ainda a ligação das repúblicas ao movimento estudantil associado à crise académica de 1969 e à resistência ao fascismo, defendendo que a sua importância não pode ser reduzida à preservação de edifícios.
“Seria uma grande perda se tratassem isto como se fossem ruínas”, afirmou.
Para a representante da República das Marias, a resistência passa também pela existência de espaços onde comunidades possam continuar a organizar-se e a desenvolver as suas próprias formas de intervenção.
“Nós continuamos a resistir e não vamos desistir, mas precisamos de espaços para conseguir resistir.”
O primeiro dia de “Cultura é um Ato Político” terminou com uma festa na Pharmácia LGBT Club, depois de um programa que colocou em diálogo diferentes formas de criação, informação e intervenção. Ao longo das sessões, a cultura foi apresentada não apenas como expressão artística, mas como um espaço de construção de consciência, defesa da diversidade e participação na sociedade.
O encontro prossegue esta quinta-feira, 10 de setembro, em Coimbra, com novas iniciativas dedicadas à relação entre cultura, sociedade e direitos humanos.
