No segundo dia de “Cultura é um Ato Político”, o jornalismo esteve no centro da discussão, com destaque para os desafios do imediatismo, do sensacionalismo e da desinformação e para a importância de uma imprensa capaz de dar visibilidade a diferentes comunidades.
O jornalismo enquanto ferramenta de resistência e de defesa dos direitos humanos esteve em destaque esta quinta-feira, 10 de setembro, no segundo dia do encontro internacional “Cultura é um Ato Político”, em Coimbra. A conversa “Cultura e Direitos Humanos” reuniu Vilma Reis, da Coimbra Coolectiva, Marianna França, da Revista Traços, e Cátia Pinho, editora de cultura do jornal universitário “A Cabra”, com a moderação de Manuel Manrques da RUC, para uma reflexão sobre o papel da comunicação num contexto marcado pelo imediatismo, pelo sensacionalismo e pela crescente circulação de informação nas redes sociais.

A discussão partiu da relação entre cultura, jornalismo e direitos humanos, mas acabou por colocar também em cima da mesa alguns dos principais desafios que atravessam atualmente a profissão.
Para Cátia Pinho, o jornalismo pode assumir uma função de resistência, particularmente num contexto como o de Coimbra, marcado por uma antiga tradição de intervenção estudantil.
A editora de cultura de A Cabra recordou o papel histórico da Associação Académica de Coimbra (AAC) nas lutas estudantis e a tradição de imprensa associada a esses movimentos. Segundo Cátia Pinho, o próprio jornal universitário surgiu numa lógica de continuidade dessa intervenção, tendo nascido, em 1983, como uma forma de resistência perante a situação vivida em Timor-Leste.
“É um local de resistência e, acima de tudo em Coimbra”, afirmou à Central Press.
Apesar dessa tradição, a editora cultural considera que atualmente é mais difícil mobilizar estudantes para estes espaços de intervenção. A pressão associada à vida académica e ao quotidiano deixa, na sua perspetiva, menos disponibilidade para o envolvimento cívico.
“Somos imensos estudantes, mas o número que está envolvido em secções da AAC ou em grupos académicos que fazem algo é minoritário”, explicou.
A transformação dos hábitos de consumo de informação foi outro dos temas abordados durante a conversa.
Com as redes sociais a assumirem um papel cada vez mais relevante na circulação de notícias e conteúdos, Cátia Pinho defende a continuidade do jornal impresso como uma forma de criar distância relativamente ao imediatismo e à desinformação.
“Na ‘Cabra’ continuamos com as nossas edições impressas, porque acaba por afastar o público das telas, da desinformação, do imediatismo”, afirmou.
Para a jornalista, o formato físico mantém uma importância particular por estar sujeito a um processo editorial antes da publicação, ao contrário de grande parte dos conteúdos que circulam nas redes sociais.
“O formato físico é essencial para manter essa distância daquilo que é real ou não”, defendeu.

A questão da qualidade da informação e da necessidade de um jornalismo mais rigoroso esteve também presente na intervenção de Marianna França, jornalista da Revista Traços e responsável pela organização do encontro.
Em entrevista à Central Press, Marianna considera que a própria crise que atravessa atualmente o jornalismo reforça a sua dimensão de resistência.
“O jornalismo é uma forma de resistência e cada vez mais.”
Para a jornalista, essa resistência passa por contrariar uma lógica assente no hard news e no sensacionalismo e apostar num jornalismo mais crítico e aprofundado.
“Aquelas pessoas que fazem o jornalismo bem, e que tentam sair dessa lógica do hard news e do sensacionalismo, são exatamente as pessoas que estão resistindo”, afirmou.
Marianna França destacou ainda o papel do jornalismo independente, apontando a Revista Traços e a Central Press como exemplos de projetos que procuram manter essa preocupação com a apuração e com um trabalho jornalístico menos dependente da velocidade de publicação.

“A gente está se disponibilizando, está fazendo esse papel de ser jornalista, de apurar bem, de fazer um jornalismo mais devagar, um jornalismo crítico”, explicou.
A sustentabilidade destes projetos foi outra das questões levantadas pela jornalista brasileira.
Questionada sobre os desafios enfrentados atualmente pelo jornalismo brasileiro na procura de dar visibilidade a comunidades e defender direitos humanos, Marianna França apontou as dificuldades financeiras como um dos principais problemas.
“O maior desafio é o patrocínio. Estas iniciativas mais humanas sofrem com questões financeiras”, afirmou.
A redução das redações e da mão de obra disponível é, para a jornalista, outro dos obstáculos à produção de trabalhos mais complexos.“Temos menos tempo para fazer matérias complexas, e isso para mim é a maior perda atual”, explicou.
A consequência, acrescentou, é uma dificuldade crescente em produzir jornalismo aprofundado dentro de estruturas independentes.“Porque a gente tenta dentro do jornalismo independente fazer um bom jornalismo mas com poucas mãos.”
A reflexão feita durante a conversa aproximou, assim, diferentes experiências de jornalismo, do meio universitário ao jornalismo independente, e colocou em comum uma preocupação. Como continuar a produzir informação rigorosa e socialmente relevante num ambiente mediático cada vez mais rápido.

Depois da conversa sobre cultura, jornalismo e direitos humanos, o segundo dia de “Cultura é um Ato Político” terminou com uma visita à República Bota Abaixo, levando o debate para um dos espaços ligados à tradição estudantil e cultural de Coimbra.
A passagem por este espaço deu continuidade à reflexão iniciada no primeiro dia do encontro, quando os participantes discutiram também o papel dos espaços de resistência na cidade e a importância de preservar lugares onde diferentes comunidades possam continuar a organizar-se, criar e intervir.
O encontro internacional prossegue esta sexta-feira, 11 de setembro, em Coimbra, com novas iniciativas dedicadas à relação entre cultura, participação e direitos humanos.
