loading

- Publicidade -

Da imprensa universitária ao jornalismo independente onde informar também é resistir

Carolina Barata/
10/09/2026, 19h40
/
7 min
Conversa “Cultura e Direitos Humanos” (Da esquerda para a direita: Vilma Reis, Cátia Pinho, Manuel Marques e Marianna França @Carolina Barata Central Press
Conversa “Cultura e Direitos Humanos” (Da esquerda para a direita: Vilma Reis, Cátia Pinho, Manuel Marques e Marianna França @Carolina Barata Central Press

No segundo dia de “Cultura é um Ato Político”, o jornalismo esteve no centro da discussão, com destaque para os desafios do imediatismo, do sensacionalismo e da desinformação e para a importância de uma imprensa capaz de dar visibilidade a diferentes comunidades.

O jornalismo enquanto ferramenta de resistência e de defesa dos direitos humanos esteve em destaque esta quinta-feira, 10 de setembro, no segundo dia do encontro internacional “Cultura é um Ato Político”, em Coimbra. A conversa “Cultura e Direitos Humanos” reuniu Vilma Reis, da Coimbra Coolectiva, Marianna França, da Revista Traços, e Cátia Pinho, editora de cultura do jornal universitário “A Cabra”, com a moderação de Manuel Manrques da RUC, para uma reflexão sobre o papel da comunicação num contexto marcado pelo imediatismo, pelo sensacionalismo e pela crescente circulação de informação nas redes sociais.

Conversa “Cultura e Direitos Humanos” @Carolina Barata Central Press

A discussão partiu da relação entre cultura, jornalismo e direitos humanos, mas acabou por colocar também em cima da mesa alguns dos principais desafios que atravessam atualmente a profissão.

Para Cátia Pinho, o jornalismo pode assumir uma função de resistência, particularmente num contexto como o de Coimbra, marcado por uma antiga tradição de intervenção estudantil.

A editora de cultura de A Cabra recordou o papel histórico da Associação Académica de Coimbra (AAC) nas lutas estudantis e a tradição de imprensa associada a esses movimentos. Segundo Cátia Pinho, o próprio jornal universitário surgiu numa lógica de continuidade dessa intervenção, tendo nascido, em 1983, como uma forma de resistência perante a situação vivida em Timor-Leste.

“É um local de resistência e, acima de tudo em Coimbra”, afirmou à Central Press.

Apesar dessa tradição, a editora cultural considera que atualmente é mais difícil mobilizar estudantes para estes espaços de intervenção. A pressão associada à vida académica e ao quotidiano deixa, na sua perspetiva, menos disponibilidade para o envolvimento cívico.

“Somos imensos estudantes, mas o número que está envolvido em secções da AAC ou em grupos académicos que fazem algo é minoritário”, explicou.

A transformação dos hábitos de consumo de informação foi outro dos temas abordados durante a conversa.

Com as redes sociais a assumirem um papel cada vez mais relevante na circulação de notícias e conteúdos, Cátia Pinho defende a continuidade do jornal impresso como uma forma de criar distância relativamente ao imediatismo e à desinformação.

“Na ‘Cabra’ continuamos com as nossas edições impressas, porque acaba por afastar o público das telas, da desinformação, do imediatismo”, afirmou.

Para a jornalista, o formato físico mantém uma importância particular por estar sujeito a um processo editorial antes da publicação, ao contrário de grande parte dos conteúdos que circulam nas redes sociais.

“O formato físico é essencial para manter essa distância daquilo que é real ou não”, defendeu.

Cátia Pinho, editora cultural do Jornal "A Cabra" ao centro @Carolina Barata Central Press

A questão da qualidade da informação e da necessidade de um jornalismo mais rigoroso esteve também presente na intervenção de Marianna França, jornalista da Revista Traços e responsável pela organização do encontro.

Em entrevista à Central Press, Marianna considera que a própria crise que atravessa atualmente o jornalismo reforça a sua dimensão de resistência.

“O jornalismo é uma forma de resistência e cada vez mais.”

Para a jornalista, essa resistência passa por contrariar uma lógica assente no hard news e no sensacionalismo e apostar num jornalismo mais crítico e aprofundado.

“Aquelas pessoas que fazem o jornalismo bem, e que tentam sair dessa lógica do hard news e do sensacionalismo, são exatamente as pessoas que estão resistindo”, afirmou.

Marianna França destacou ainda o papel do jornalismo independente, apontando a Revista Traços e a Central Press como exemplos de projetos que procuram manter essa preocupação com a apuração e com um trabalho jornalístico menos dependente da velocidade de publicação.

Marianna França, jornalista na Revista Traços @Carolina Barata Central Press

“A gente está se disponibilizando, está fazendo esse papel de ser jornalista, de apurar bem, de fazer um jornalismo mais devagar, um jornalismo crítico”, explicou.

A sustentabilidade destes projetos foi outra das questões levantadas pela jornalista brasileira.

Questionada sobre os desafios enfrentados atualmente pelo jornalismo brasileiro na procura de dar visibilidade a comunidades e defender direitos humanos, Marianna França apontou as dificuldades financeiras como um dos principais problemas.

“O maior desafio é o patrocínio. Estas iniciativas mais humanas sofrem com questões financeiras”, afirmou.

A redução das redações e da mão de obra disponível é, para a jornalista, outro dos obstáculos à produção de trabalhos mais complexos.“Temos menos tempo para fazer matérias complexas, e isso para mim é a maior perda atual”, explicou.

A consequência, acrescentou, é uma dificuldade crescente em produzir jornalismo aprofundado dentro de estruturas independentes.“Porque a gente tenta dentro do jornalismo independente fazer um bom jornalismo mas com poucas mãos.”

A reflexão feita durante a conversa aproximou, assim, diferentes experiências de jornalismo, do meio universitário ao jornalismo independente, e colocou em comum uma preocupação. Como continuar a produzir informação rigorosa e socialmente relevante num ambiente mediático cada vez mais rápido.

Manuel Marques, Marianna França, Vilma Reis e Cátia Pinho @Carolina Barata Central Press

Depois da conversa sobre cultura, jornalismo e direitos humanos, o segundo dia de “Cultura é um Ato Político” terminou com uma visita à República Bota Abaixo, levando o debate para um dos espaços ligados à tradição estudantil e cultural de Coimbra.

A passagem por este espaço deu continuidade à reflexão iniciada no primeiro dia do encontro, quando os participantes discutiram também o papel dos espaços de resistência na cidade e a importância de preservar lugares onde diferentes comunidades possam continuar a organizar-se, criar e intervir.

O encontro internacional prossegue esta sexta-feira, 11 de setembro, em Coimbra, com novas iniciativas dedicadas à relação entre cultura, participação e direitos humanos.

Poderá querer ler

loading

- Publicidade -

()Comentários

Comentários desabilitados

Os comentários para este artigo estão desabilitados.

Outros artigos em undefined

loading

- Publicidade -

Artigos de Opinião

loading