O plástico faz parte da nossa vida diária. Usamo‑lo em garrafas de água, embalagens de alimentos, roupas, sacos e muitos outros produtos. Um dos plásticos mais comuns chama‑se PET, e está presente, por exemplo, nas garrafas de refrigerante e em tecidos sintéticos. O grande problema é que este material vem do petróleo e demora centenas de anos a desaparecer na natureza, causando poluição nos oceanos, nos solos e até nos alimentos que consumimos.
A pensar nessa preocupação ambiental, investigadores da Universidade de Kobe, no Japão, desenvolveram uma nova solução que pode mudar o futuro dos plásticos. Em vez de usar petróleo, os cientistas recorreram a bactérias vivas, mais precisamente bactérias do tipo Escherichia coli (ou E. coli), para produzir um material que pode substituir o plástico PET e que é biodegradável, ou seja, que se decompõe naturalmente sem deixar lixo duradouro.
O que fizeram exatamente os cientistas?
Os investigadores modificaram geneticamente estas bactérias para funcionarem como pequenas “fábricas biológicas”. Em termos simples, deram às bactérias novas instruções para que, ao consumirem glicose (um tipo de açúcar), passem a produzir uma substância chamada ácido piridínico dicarboxílico, conhecida pela sigla PDCA.
Podemos imaginar este processo como uma padaria:
- O açúcar é a farinha;
- A bactéria é o padeiro;
- E o PDCA é o pão acabado de fazer.
A diferença é que, em vez de pão, o resultado final é um material que pode ser usado para fabricar plásticos.
Porque é que o PDCA é tão importante?
O PDCA tem duas grandes vantagens:
- É biodegradável – ao contrário do PET tradicional, não fica décadas ou séculos no ambiente;
- É resistente - testes mostram que os materiais feitos com PDCA podem ter propriedades físicas semelhantes ou até melhores do que o PET comum.
Isto significa que, no futuro, poderemos ter garrafas, roupas ou embalagens tão fortes quanto as atuais, mas que não prejudiquem tanto o ambiente.
Um avanço importante na produção em grande escala
Criar novos materiais em laboratório é um primeiro passo, mas o verdadeiro desafio é produzir grandes quantidades, suficientes para uso industrial. Segundo o estudo publicado na revista científica Metabolic Engineering, a equipa japonesa conseguiu produzir PDCA em biorreatores (equipamentos usados para fazer crescer bactérias) em quantidades sete vezes superiores às obtidas em experiências anteriores - e sem criar resíduos indesejados no processo.
Este ponto é fundamental, porque quanto mais limpa e eficiente for a produção, mais fácil será levar esta tecnologia para fábricas reais.
Porque usar bactérias em vez de processos químicos tradicionais?
O investigador principal do estudo, Tanaka Tsutomu, explica que a maioria dos plásticos sustentáveis desenvolvidos até hoje usa moléculas muito simples, feitas apenas de carbono, oxigénio e hidrogénio. O PDCA é diferente porque inclui também azoto, um elemento comum na natureza, mas mais difícil de integrar em processos industriais limpos.
Ao usar o metabolismo natural das bactérias, os cientistas conseguem incorporar esse azoto de forma mais eficiente e com menos poluição, algo que os métodos químicos tradicionais não fazem bem.
Um problema inesperado - e como foi resolvido?
Durante o desenvolvimento deste método, a equipa encontrou uma dificuldade importante. Uma das enzimas usadas pelas bactérias produzia peróxido de hidrogénio (H₂O₂), uma substância muito reativa e conhecida como água oxigenada. Este composto acabava por danificar a própria enzima, atrapalhando a produção.
Para resolver o problema, os investigadores ajustaram as condições de crescimento das bactérias e adicionaram uma substância que neutraliza o H₂O₂. Embora isso possa tornar o processo um pouco mais caro e complexo, permitiu que a produção continuasse de forma estável.
O que pode mudar no nosso dia a dia?
Se esta tecnologia for levada para a indústria, os benefícios podem ser enormes:
- Menos plástico feito de petróleo;
- Menos lixo nos oceanos e nos solos;
- Embalagens e produtos que se degradam naturalmente;
- Menor dependência de recursos não renováveis.
Em palavras simples, esta descoberta mostra que a própria natureza pode ajudar a resolver os problemas criados pela ação humana. Ao usar bactérias - organismos microscópicos que já existem há milhões de anos - a ciência encontra caminhos mais limpos e sustentáveis para o futuro.
Um passo importante, mas ainda não o fim do caminho
Os próprios investigadores reconhecem que ainda há trabalho a fazer antes de vermos este tipo de plástico nas prateleiras dos supermercados. No entanto, conseguir produzir PDCA em quantidades suficientes é considerado um passo decisivo para que este material saia do laboratório e chegue à vida real.
Como afirma Tanaka, provar que é possível produzir este composto em biorreatores abre as portas para uma nova geração de plásticos mais amigos do ambiente.
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