No coração da Região Centro, entre serranias e vales moldados pelo rio Mondego, encontra-se Tábua — vila portuguesa de traços antigos e alma persistente, onde cada 10 de abril se celebra mais do que um simples feriado municipal.
Neste dia assinala-se a restauração da Comarca de Tábua, um marco de justiça e autonomia que devolveu à vila um estatuto há muito ambicionado e merecido.
A data foi escolhida para honrar a reimplantação da comarca, fixada definitivamente neste território com a inauguração do imponente Palácio da Justiça. Este edifício, moderno mas carregado de simbolismo, representa o cumprimento de uma aspiração antiga de várias gerações de tabuenses. É também sinal de que a justiça, enquanto pilar fundamental da democracia, encontrou aqui o seu lugar de permanência.
Um olhar pelas origens
O nome de Tábua está envolto em lendas e referências históricas. Reza a tradição que o topónimo provém de uma ponte de tábuas que, em tempos remotos, permitia atravessar o Mondego nos dias do Condado Portucalense. A importância estratégica do local já era então reconhecida, e em 1120 a Infanta D. Teresa doou estas terras à influente família dos Cunhas, tornando Tábua uma honra e julgado, um território com autonomia judicial e administrativa.
Em 1514, o concelho receberia o foral manuelino, confirmando oficialmente os seus privilégios e marcando o início da sua história institucional. A sua evolução foi marcada por períodos de prosperidade agrícola, com destaque para a produção de azeite, vinho e, naturalmente, do afamado Queijo Serra da Estrela.
Hoje, Tábua - que é Património com alma - é sede de um município com 11 freguesias, estendendo-se por cerca de 200 km² e acolhendo mais de 12 mil habitantes. A vila, embora tranquila, guarda recantos de grande valor patrimonial e espiritual. A Capela do Senhor dos Milagres, com a sua invulgar planta octogonal e exuberância barroca, é um desses exemplos. No seu interior, destacam-se as imagens do Senhor dos Milagres, de São José e da Senhora da Piedade — expressões de fé e arte sacra que atravessaram os séculos.
Outro ponto imperdível é a Pedra da Sé, miradouro natural onde a vista se perde sobre as águas do Mondego. Por ali passa a Via Romana da Pedra da Sé, um trilho que não é apenas percurso, mas um mergulho no passado — ideal para quem gosta de caminhar e sentir, literalmente, a história sob os pés.
Nenhuma visita a Tábua fica completa sem saborear o que de melhor a terra dá. Em qualquer restaurante local, o Queijo aparece como rei da mesa, muitas vezes ladeado por enchidos artesanais e pão de centeio ainda quente. Para brindar, escolha um copo de Vinho da região, cuja personalidade robusta combina na perfeição com o espírito resistente dos tabuenses.
E antes de partir, uma paragem no Mercado Municipal é obrigatória. Ali encontrará produtos locais, artesanato e, sobretudo, o acolhimento de uma comunidade que sabe bem receber e que faz da hospitalidade um traço da sua identidade.
Tábua, terra de Comarca e de memória, com o 10 de abril, recorda a conquista da sua justiça, mas também reafirma o orgulho na sua história. Um feriado que convida à visita e à descoberta, que junta tradição e renovação, e que reforça o sentimento de pertença a uma terra de horizontes abertos e raízes profundas.
Porque mais do que um dia de descanso, o Feriado Municipal de Tábua é uma celebração do que somos, do que fomos e daquilo que ainda queremos ser.
